segunda-feira, janeiro 17, 2005

A próxima FIV

Segundo os meus cálculos, o próximo tratamento deve começar em 27 de Janeiro (1ª dia do ciclo). Dou comigo de vez em quando a pensar nisso, estremeço e tenho vontade de desistir ainda antes de começar. Começo a ver agulhas e eu na cama a repousar e os médicos... e a espera. Tento logo mudar o pensamento ... e tenho conseguido. Mas ando a dormir mal.
Entretanto, adoptámos uma gatinha, que me fez ver que o amor é incondicional e que eu daria certamente uma boa mãe. Ela faz-me muita companhia e vai concerteza ajudar-me nos dias que estiver em repouso.
Além disso, resolvi fazer acupunctura, algo bastante normal em países como Inglaterra, onde é ponto assente que aumenta as probabilidades de sucesso nos tratamentos de FIV. Cá não se acredita em nada a não ser na medicina convencional, mas eu decidi seguir o meu instinto e tenho gostado.

O que mudou (I)

Neste tempo que dura desde o conhecimento da minha infertilidade tive que mudar as minhas crenças e reaprender a viver. Primeiro era só desespero e frustração... depois recuperar de cada vez que me ia abaixo ... e só depois comecei a aceitar. Para começar aceitar o meu corpo de mulher, que é lindo e que tem que continuar a ser cuidado. Aceitar que se pode e deve ser feliz com ou sem filhos. Aceitar que há outros caminhos. E viver intensamente cada dia ... cada experiência como única, mesmo os tratamentos ... só possíveis graças ao avanço da ciência e que poucos conhecem tão bem como as mulheres como eu. E nunca mas nunca perder o senso de humor nem deixar de sorrir (é claro que também choro e sofro ... não sou de ferro).

A história...

Já nem sei quando foi ... andava há quase um ano a tentar engravidar e resolvi que era tempo de ir à ginecologista. Análises várias, a mim e ao cara metade, tava tudo bem, ecografias... espermograma ... tudo bem ... achava que era azar! Infertilidade era uma palavra desconhecida! Passam os meses ... a médica manda-me fazer uma Histerosalpingografia (metem um líquido no útero e tiram umas "fotos" a avaliar como ele passa nas trompas), mas o exame era tão agradável que desmaiei e teve que ser repetido, uns meses depois ... agora no hospital. Dessa vez levei o maridão não fosse eu tiltar de novo... e lá fiz o exame (desta vez só vomitei!) . No fim estava zonza mas deu para olhar para o écran e ver que o líquido só passava de um lado. A médica deve ter tido pena de mim e na altura não disse nada... mas na consulta seguinte foi sucinta. Uma trompa estava completamente obstruída e a outra era filiforme. Lindo... eu nem sabia para que serviam as trompas! Nem tinha consciência delas em mim e agora tramavam-me. Deu-me a indicação de um médico especialista no Porto... e disse que eles me indicavam o caminho a seguir.
Aí tive alguma sorte. Numa clínica onde se esperam meses por uma vaga...fui tão chata que consegui consulta para o dia seguinte e descobri que ia ter que fazer fertilização in vitro (FIV) caso quisesse tentar ter filhos. E que cada tratamento eram cerca de 600 contos. Choro... desepero e esperança! O maridão tava comigo em tudo. Nunca senti que me rejeitasse. O casamento saiu-se bem.
Mais análises, demoradas, caras, mais exames esquisitos e muito dinheiro gasto. Em Setembro de 2003 ... muito confiante lá vou eu fazer a minha primeira tentativa de FIV. Tenho que tomar injecções todos os dias ... e dadas as circunstâncias o melhor é ser eu a dá-las ... ok. Nunca me achei capaz. Mas fui. Ecografias regulares... os folículos crescem bem, muitos.... Fazem-me a punção (isto é aspiram os ditos cujos) e obtêm 18 (!) ovócitos. O cara metade dá o esperma e fertilizam-nos em laboratório. Quatro dias depois temos 12 embriões, dos quais 2 são-me transferidos e fico 4 dias de molho, quietinha à espera que eles se aconcheguem. Depois são cerca de 10 dias...10 longos e dolorosos dias até ao exame. Entretanto começo a ter perdas. Choro muito. Chateio os que amo. Depois o choque. Não estou grávida. Demorei muito a recompor-me! Achava que não prestava para nada. Estava vazia e minha vida tinha perdido o sentido.
Mas a esperança é a última a morrer e já fiz mais duas tentativas, uma das quais com embriões crioconservados. E estamos em Janeiro de 2005 e vou começar em breve mais uma tentativa daquela que (digo eu) será a última. Entretanto cresci... mudei as minhas crenças e acima de tudo tornei-me um ser humano melhor, mais tolerante. E já não faço pesquisas na Net. Não quero saber. Aceito.

O início...

Quando pensei neste blog a intenção era ajudar-me. Escapar por uns momentos, desabafar sem chatear ninguém. Entretanto e depois de mais algumas desilusões e descobertas achei que era melhor pensá-lo para ajudar outras pessoas...
Quando descobri que era infértil pesquisei tudo o que pude na Net...mas em português de Portugal não descobri nada de interessante... as dúvidas eram tantas, os medos, as incertezas... que dava comigo a toda a hora em sites de clínicas de infertilidade americanas à procura de luz! Agora já não quero saber nada... sei o que preciso e descobri que a grande descoberta a fazer é interior...
Seja!